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Futebol sem Paz

A cena teria acontecido em algum lugar em Israel. O pai judeu está fazendo compra numa banca de um palestino. Esse pai judeu está acompanhado de seu filho. O garoto está usando uma camisa da seleção brasileira e carregando uma bola. Brincando com sua bola, o menino acaba derrubando um produto da banca do palestino. Então, surge certa tensão quando o pai israelense e o palestino se entreolham. Mas, a bola pula e vai ao encontro de outro garoto na rua – é o filho do comerciante palestino, também usando a camisa da seleção brasileira. A tensão se desfaz e os dois garotos começam a brincar juntos com a bola. Esse é o comercial atual na TV, provendo uma instituição financeira.

Maravilhas que o futebol realiza? Há um pensamento disseminado na mídia e sociedade que responderia afirmativamente. Num campo de futebol, numa periferia de cidade, estava afixada a faixa: “Esporte é paz.”

Na semana passada, duas torcidas voltando de um jogo se encontraram numa parada de rodovia perto de Campinas e se digladiaram. O saldo final foi um torcedor morto e outro perder uma mão. Se isso fosse um fato isolado, não haveria nenhuma implicação direta com a proposta de futebol como paz. Porém, essa tragédia é a própria realidade. Os estádios precisam contar com grades e proteções que se igualam ao que se usa em penitenciárias. O aparato policial necessário num jogo é maior do que se usa para conter os senhores das drogas nas favelas. É tudo isso, ou então é uma mortandade a cada jogo. E, como estão assim impedidos da agressão física no estádio, os torcedores lançam mão da agressão verbal da forma mais destrutiva possível. Pouco se importam se estão vomitando sua violência contra outro ser humano, digno de respeito e integridade. É a destruição pelo palavreado. Aliás, um trabalho produzido na USP revelou que a torcida do futebol brasileiro é a mais violenta, ganhando inclusive dos argentinos e dos parias sociais ingleses chamados de “hooligans”.

Esporte, e especialmente o futebol, como o provedor da paz é uma das mais equivocadas abordagens dos nossos tempos. Na verdade, frases de efeito como “futebol é paz”, é a própria prova desse equívoco. Essa frase é muito mais um apelo para que haja paz no futebol. Cenas como aquela do comercial acima citado é uma mera visão romântica que em nada toca a realidade humana. O futebol é incapaz de produzir a paz, pelo contrário, até produz violência em países com poucos conflitos sociais e jamais poderia produzir paz numa situação tão complexa como a dos judeus e palestinos.

Paz é relacionada há uma dimensão muito mais profunda do que a mera superficialidade esportiva. Paz é algo crucial da alma humana, algo para o qual o futebol é irrelevante. Se a paz é o que se quer, não será o esporte que irá criá-la. Paz é produto de uma transformação real e íntima do ser humano. Comportamento de respeito e dignidade para com o próximo exige o romper com valores malignos interiorizados no ser humano. Valores de uma proposta formada a parte de Deus. Inclusive, o futebol até instiga a manifestação dessa destrutiva pobreza moral.

Profetizando séculos antes de Cristo, e falando da vinda dEle, o profeta Isaías o intitula de “príncipe da paz” (Isaias 53). Cristo disse “a minha paz vos dou.” Paz exige um encontro com Deus. E o encontro com Deus passa por Cristo, o caminho. Na morte de Cristo pelos pecados humanos, o arrependido rompe no seu íntimo com esse padrão imoral tão longe de Deus. E aí tudo é transformado, inclusive a visão do valor e dignidade do próximo. E vem a força para se buscar e sustentar um comportamento de paz, no esporte e em todas as outras esferas da vida humana.

Fonte: por Jesse Campos

Pastor titular desta Igreja desde 1986.
Casado com Patricia e possuem duas filhas.
Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo.
Mestre em Divindades pelo Southwestern Theological Baptist Seminary, USA.
Mestre em Filosofia pela Baylor University, USA, e Unicamp.